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Última Sessão


























Última Sessão é a coleção em que o ateliê encerra um ciclo de estudos sobre o anil e o preto de casca. São peças escuras e densas, tingidas em banhos repetidos até a cor ficar funda, com costuras aparentes e acabamentos que mostram o avesso. Foi pensada para a noite, para o inverno do Sul e para quem prefere roupa que não pede atenção. Cada peça tem número e assinatura na barra, e a tiragem é fechada.
A coleção reúne casacos, camisas, calças e uma colcha de fios tingidos à mão, que fecha a série. Desenho, tingimento e costura foram feitos no ateliê, em Porto Alegre. Fotos: equipe Urdume Ateliê, com luz natural e sem retoque de cor.
Chamamos de última sessão o dia em que a gente desliga o fogo, lava as panelas e olha para tudo o que foi feito. Não é um fim, é uma pausa para conferir o que ficou. Durante dois anos, o ateliê trabalhou com um único assunto: a cor escura que não é preta. Queríamos descobrir quantos tons de noite cabem em um tecido, e a resposta foi surpreendente. Começamos pelo anil, que é a planta mais generosa que conhecemos. Ele não tinge de uma vez. É preciso mergulhar o pano, tirar da tina, deixar o ar fazer o resto, e voltar. O verde que aparece ao sair da água vira azul diante dos nossos olhos. Esse milagre pequeno nunca perdeu a graça. A cada mergulho o tom fica mais profundo, e a conta é simples: quanto mais paciência, mais escuro. Fizemos peças com três mergulhos, com sete, com doze. Penduramos todas lado a lado no varal do pátio e fomos escolhendo. Depois veio o preto de casca. Ele nasce de cascas e frutos ricos em tanino, fervidos por horas e misturados a um banho de ferro. A mistura cheira a pátio depois da chuva, e o pano sai cinza, azulado, marrom, dependendo do dia. Foi a parte mais difícil. Nenhum lote saiu igual ao outro, e entendemos que era justamente isso que queríamos mostrar. Em vez de lutar contra a variação, guardamos todas as versões e as colocamos em sequência, da mais clara à mais escura. Essa sequência virou a espinha da coleção. A modelagem acompanhou a cor. Os casacos têm ombro caído e gola alta, para proteger do vento do Guaíba. As camisas são longas, com fenda lateral e punhos largos. As calças têm cós alto e perna reta, com bolso fundo de linho cru por dentro, como um segredo. Tudo é costurado com linha de algodão encerada, em ponto aparente, para que o fio faça parte do desenho. Quem veste Última Sessão percebe que a roupa tem peso, e esse peso é uma companhia. Ela envolve sem apertar. Nos testes de uso, pedimos a amigas e amigos que vestissem as peças por um mês e nos devolvessem com anotações. Voltaram marcas de café, fios puxados, uma mancha de tinta de caneta e muito carinho. Aprendemos que a roupa escura perdoa, mas também guarda a história. Por isso incluímos em cada peça uma etiqueta de cuidado: lavar do avesso, em água fria, secar à sombra, nunca usar alvejante. Quem seguir esse conselho verá a cor assentar e ganhar um brilho suave com os anos. Com o tempo, o anil clareia nas dobras, nos cotovelos, nos joelhos. Esse desgaste é o que chamamos de assinatura do corpo. Duas pessoas que usam a mesma calça por um ano terão duas calças diferentes, e isso é lindo. A colcha de fios tingidos à mão foi a última peça da série. Ela reúne todos os retalhos e as sobras de banho dos dois anos de trabalho, costurados em faixas que vão do azul claro ao quase preto. Levou três meses para ficar pronta, feita por várias mãos, sem pressa. Quando terminamos, estendemos a colcha no chão do ateliê e ficamos em silêncio por um tempo. Havia ali todas as tardes de tingimento, as chuvas que atrasaram a secagem, os dias de calor que aceleraram o banho, as conversas de bancada. É uma peça que não se repete e não se vende duas vezes. Por fim, quero agradecer a quem esteve conosco durante esse tempo: às costureiras e bordadeiras do ateliê, a quem forneceu o linho e o algodão, a quem nos emprestou o pátio, a quem comprou as primeiras peças ainda sem acreditar no processo. Última Sessão é uma despedida de um modo de trabalhar e, ao mesmo tempo, um convite para o próximo. O ateliê continua aberto de terça a sábado. Venha tomar um café, tocar os panos e ver as panelas ao fogo. Sempre há um novo banho começando.





